
Este mundo não tem centro enm
há outro mundo perto.
Aqui é-se mortal mas o pão vem
quente de manhã. Fica-se
monoteísta por antropomorfia (ou anamorfose?)
Aconteceu por cá a invenção
do jogo do xadrez e outros maduros
afeiçoaram-se à perspectiva. Ela
ensina como um zarolho paralítico vê o que lhe está por fora
à imitação do ciclope (o tal que tinha
de nascença um olho só
a meio da cara, por baixo da testa à grega)
e atado de pés e mãos não se arriscava
a sofrer de bicho-carpinteiro, vírus que as mães dizem atacar
os pequenos entes queridos quando
não havia cão nem gato que não metessem à bulha.
A invenção da perspectiva foi
de muita utilidade a arquitectos e designers,
o frio aprumo da régua somou-se aos quadros com
passos de dança e gansos
amestrados apresentaram em 3D
desenhos rigorosos ou apenas esboçados
(nessa altura não havia em cada lar pelo menos
um computador)
a detalhar com minúcia planos
que depois de alçados eram explicados
em explícitos cortes.
Por virtude da muita curiosidade que despertava quando jovem
a perspectiva foi simultânea amante de vários bons amigos
que a ela davam o seu melhor em dias e noites iluminadas pelos
prazeres em estudo.
Todos se ilustraram em várias artes
pondo a correr os saberes

aprendidos em comum. Consta que
Brunelleschi, Masaccio, Piero, o tudesco Alberto
e outros mágicos famosos tornaram credível
aquilo que a TV faz hoje noutra escala, a alta
escola do perigo: "tudo o que se amostra ao povo
deve ser-lhe dado a uma distância certa".
Júlio Pomar
3 comentários:
Fantástico poema. E eu que adoro Pomar e até tenho um quadro dele, que não conhecia.
Aprendo sempre coisas por aqui.
Beijinhos e boa semana
Sublime, nada mais a dizer!
Voltei vá por lá.
beijos com saudades
Ele escreveu mesmo "tudo que se amostra ao povo" ou é gralha?
Não percebo nada de pintura, acho bem que exista em diversas formas, com ou sem perspectiva, para todos os gostos. Do (muito) pouco que conheço da obra de Julio Pomar, só posso dizer que não sou especial apreciadora...
Beijocas!
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