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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Conhecer os outros: Os Ciganos



“Que bichos são aqueles que vejo além na bruma do entardecer? Vão e vêm, ora de gatas, como ratos, ora em dois pés, como macacos; conforme se abaixam ou se levantam, parecem ser ora pigmeus, ora gigantes, toupeiras ou ursos… Palavra de honra, são homens, Ciganos! São seis e há um grandalhão que os vigia. Extraem areia do rio.”

É com esta descrição das condições de vida dos ciganos, feita por dois viajantes franceses pelas regiões da Moldávia e Valáquia, no século XIX, que Marcel Courtiade, secretário da União Romani Internacional, Região Europa inicia o seu périplo pela situação esclavagista vivida pelos ciganos nalguns países da Europa de Leste, no seu prefácio ao livro de Claire Auzias, Os Ciganos, ou o destino selvagem dos Roms do Leste.

Que também passa pela menção de codificação relativa ao povo cigano, como o Código de Vassil Lupul, príncipe da Moldávia (1816), cujo primeiro capítulo continha o seguinte artigo: “Em matéria de dote, os Roms, como todo o gado ou imóveis, avaliam-se por estimativa (…)”
Mas não é só dos ciganos escravos que Courtiade nos fala, mas também dos músicos livres, outro património, ou dos escravos evadidos, considerados, naturalmente heróis, dos grupos tolerados pelos otomanos, ou grupos em áreas de influência alemã, com o destino trágico que se conhece.
Um prefácio com muita informação e descrição de preconceitos clássicos a este povo associados.

Mas, na verdade, um cigano nasce ou faz-se? O que caracteriza o povo cigano? O nomadismo, a língua, a cultura? E qual a posição dos outros povos face ao povo cigano? Analisando um relacionamento que nunca foi fácil, Claire Auzias, especialista na matéria, problematiza e analisa a história e vida do povo Rom, espalhado pelos países europeus, ao sabor de guerras, religiões e direitos de cidadania.
E vai sempre relatando as tentativas de assimilação e aproveitamento que os vários povos/países/regimes fizeram dos Roms, não deixando de evocar o seu extermínio pelos nazis (500 000), também ele tão pouco lembrado.
Um livro que nos permite, sem dúvida, ter uma visão mais esclarecida do tema. E nos faz pensar (ainda mais) sobre a actual legislação italiana.