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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Os Arquivos e as Memórias: O(s) Projecto(s) Bam, no Irão


A cidade de Bam, no Irão, se estão recordados, foi vítima de um violento terramoto que matou 30.000 pessoas, na manhã do dia 26 de Dezembro de 2003.

Se recordo aqui, agora, este trágico acontecimento, na primeira vez que se comemora o Dia Internacional dos Arquivos, passados que são 60 anos da criação do Conselho Internacional de Arquivos em Paris, no seio da UNESCO, é porque considerei que divulgar os dois projectos Bam que se desenvolveram em torno da salvaguarda das memórias fotográficas da cidade e dos seus habitantes constituiu uma dupla homenagem: aos arquivistas envolvidos nos projectos, mas sobretudo, aos ilustres anónimos (para nós) habitantes de Bam que podem assim manter e participar na elaboração das suas memórias (neste caso particular, fotográficas).

Se é certo que os Arquivos constituem a Memória de um Povo, de um País, não é menos certo que não existem sem que haja registos desse mesmo Povo…

Os Projectos Bam

- Depois do terramoto, e, quando lhes perguntavam “qual é o seu local favorito na cidade?” a maioria dos habitantes de Bam respondia: o cemitério. Quando se lhes perguntava porquê, respondiam simplesmente: “porque é onde as nossas memórias estão”.
De facto, 80% das famílias em Bam tinha perdido familiares no desastre, e a memória imediata estava irremediavelmente relacionada com a tragédia.

Foi assim desenvolvido um projecto único, criativo e inovador, pela Picture People, com a ONG Britânica Merlin e a ONG Suiça Terre des Hommes, dando a 100 homens, mulheres e crianças, máquinas fotográficas Kodak para que fotografassem a sua vida após o terramoto. Esta experiência produziu, como é natural, centenas de imagens e histórias, o que levou a que o projecto se tornasse anual, com o objectivo de se manter até 2010.

Simultaneamente, e sob a vontade de Parisa Damadan, desenvolveu-se o Bam Photographic Rescue Project, sustentado pela parceria com a AIDA Nedeerland, onde arquivistas holandeses asseguram a digitalização e controle de qualidade das imagens trazidas.
O objectivo deste projecto era (e é) salvar os espólios fotográficos das casas comerciais dos fotógrafos de Bam, existentes à data da tragédia. Salvar, portanto, um manancial de registos fotográficos dos habitantes de Bam que, de outra forma, não mais seria acessível para ninguém, nem para os próprios. Vale a pena visionar as imagens, que, de resto, não consegui copiar.
Bem como o pequeno filme feito por um realizador iraniano, logo após o terramoto, visionável mais abaixo.

No Dia Internacional dos Arquivos, é reconfortante acompanhar este caso.

Afinal, não há Arquivos sem Registos, sem Memórias, sem Pessoas.

three Days and ten days -

domingo, 27 de abril de 2008

Os Arquivos e as Guerras

Ao longo da História, as guerras foram sendo sinónimo de “empréstimos” mais ou menos escandalosos de arquivos, sendo comum o conquistador levar, às vezes em grandes quantidades, arquivos dos territórios conquistados.

Por isso mesmo, surge em Arquivística o princípio da territorialidade, o qual determina que os arquivos devem ser mantidos sob a jurisdição arquivística do território onde foram produzidos.

Mas se os princípios podem ser enunciados, é mais difícil, no teatro da guerra, serem aplicados. Foi assim, com particular agrado que, através do Conselho Internacional de Arquivos, tomei conhecimento da Declaração Conjunta que a Society of American Archivists e a Association of Canadian Archivists fizeram a propósito da documentação desviada do Iraque, digamos assim, durante as duas Guerras do Golfo.

Nela são enunciados o tipo de documentação levada, aproximadamente o número e por quem. Vale a pena ler.

Costuma dizer-se que os arquivos constituem a nossa a memória. Subtrai-los equivale a apagá-la.

aqui tinha feito um post a propósito dos problemas que se colocam ao património, seja ele museológico, biblioteconómico ou arquivístico em caso de conflitos armados. Às vezes esquecemo-nos…