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sábado, 18 de janeiro de 2014

Vida

Rondo.
Mas nem sei o que guardo, nem conheço
Quem me manda ficar de sentinela...
Sei apenas que é um crime se adormeço
E deixo de espreitar pela janela.

Rondo,
Como soldado lírico que sou.
Se é manhã,
Se é poema,
Se é luar, o que vem,
- Sabe-o quem me acordou,
Se foi alguém...

Coimbra, 27 de Janeiro de 1943

Miguel Torga

domingo, 22 de setembro de 2013

Gatos, gatos e mais gatos






Bustopher Jones is not skin and bones--
In fact, he's remarkably fat.
He doesn't haunt pubs—he has eight or nine clubs,
For he's the St. James's Street Cat!
He's the Cat we all greet as he walks down the street
In his coat of fastidious black:
No commonplace mousers have such well-cut trousers
Or such an impeccable back.
In the whole of St. James's the smartest of names is
The name of this Brummell of Cats;
And we're all of us proud to be nodded or bowed to
By Bustopher Jones in white spats!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 12 de novembro de 2011

Castanhas

As Castanhas

Castanhas, Castanhas
Tão quentinhas com sal.
Quentinhas e assadinhas
A ninguém faz mal.

Castanhas assadinhas
Com sal são saborosas.
Quentinhas e boas
São tão gostosas!

Filipe Ramos -Escola E. B. 1 Nº1 de Espinho


Retirado daqui

domingo, 9 de janeiro de 2011

As coisas simples



Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que


crescem depressa, como os ciprestes, ou as


que se enrolam a tudo o que aparece nos muros


como as buganvílias. Através delas, vejo o céu


que me traz outras coisas, mais complicadas


dos que estas da terra; e também no céu


escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem

que há pouco parecia eterna e desapareceu;

ou um branco sujo que apagou o horizonte,

por algum tempo, e fez com que todo o

universo ficasse ao meu alcance para nada.

Mas o que é simples também pode ser o

seu contrário. Há uma lógica no interior

deste movimento que faz crescer o cipreste,

ou empurra a buganvilia para o fundo do muro;

e também as nuvens seguem uma direcção

precisa, mudando a sua forma à medida que

se afastam dos meus olhos. A verdade deste

mundo encontra-se no próprio acaso que

a determina; e sou eu que tenho de encontrar

as razões para o que não precisa delas,

porque a sua existência se limita a este

perfume de fim de verão, ou à queda

das folhas que se confundem com nuvens.

O mundo é imprevisível como a vida

da borboleta que nasceu de dentro da

buganvilia; mas o vento que há pouco soprava,

não me disse nada sobre isso, nem o seu

sopro vago me libertou de folhas e de

nuvens, para que o chão e céu ficassem

limpos. Só a borboleta, no instante do voo,

trouxe a sua luz dissonante para dentro

da natureza; e foi ao encontrá-la,

no meio da terra e das pedras do jardim,

que me apercebi de que nem tudo é simples,

quando a morte se cruza com a beleza.





Nuno Júdice

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Passeando por aí


Não sei quantas vezes terei passado pelo Jardim da Estrela durante a minha juventude... mas foram muitas, já que tinha que o atravessar diariamente para ir para o Liceu.
Aparentemente não foram vezes suficientes... porque nunca tinha reparado neste banco. Mais vale tarde do que nunca... fiquem aqui com este belo poema do Henrique Passo d'Arcos

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Blues da morte de amor

Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
ao lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura (Porto, 1942)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Irene no Céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sátiras

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão, Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha, Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
(Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Desencontros

***
As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro
*
e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento
*
e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas àrvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços
*
a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.
***
António Maria Lisboa

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ás cinco da tarde




Llanto por Ignacio Sánchez Mejías


Eran las cinco en punto de la tarde


Un ninõ trajo blanca sábana
a las cinco de la tarde

Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.

Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.

Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.

Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.

Y un muslo con una hasta desolada
las cinco de la tarde.

Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.

Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.

En las esquinas grupos de silêncio
a las cinco de la tarde.

Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.

Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,

cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,

la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.

Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.

El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.

El cuarto se irisaba de agonia
a las cinco de la tarde.

A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.

Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.

La heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,

y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.

Ay qué terribles cinco de la tarde!

Eram las cinco en todos los relojes!

Eram las cinco en sombra de la tarde!


Garcia Lorca






terça-feira, 2 de junho de 2009

Certezas

.
.
.

Não nos responde o céu cinzento e opaco
nem o sorriso de pedra e impenetrável dos nichos...
.
.
... só nós sabemos porque vivemos num buraco
encurralados como bichos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Gatos e Poesia

Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
Ainda sem palavras, sem enredos,
Quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O’Neill, in Abandono vigiado, 1960

sexta-feira, 27 de março de 2009

Subindo ou descendo

foto: José Luis Almeida
o elevador de santa justa



podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.



podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sózinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.



no tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
com o cesário dorme a última varina, a mais robusta.
não é para desoras o elevador de santa justa,
arrefece-lhe o esqueleto de metal,
mas tens o dia todo à luz do dia. não faz mal.


Vasco Graça Moura

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Gatos e Poesia



Em tempos que já lá vão, quando podia andar, portanto antes de ontem, fui finalmente a uma livraria a que fazia questão de ir: a Poesia Incompleta, que recomendo vivamente.
Como palavra puxa palavra, acabei por sair de lá com dois livros sobre gatos, pois então, de uma autor que não conhecia: Rui Caeiro, mas de que vos deixo aqui alguns excertos.
Dormir ao sol, ser o dno da tua pequena ilha ao sol. Governá-la é: dominar o mundo, nada fazer.
As carícias do gato às vezes dão em arranhões. E daí? Não há amor, não há ternura que não deixem marcas.
E quando estás prestes a aborrecer-te, bocejas e adormeces. Dormes muito. Aborreces-te pouco.
Se eu fosse chão de pisar, era ainda a ti que havia de querer mais. Pela elegância, pela leveza.
Horas sentado, imóvel, olhando resignadamente em frente. De orelhas sempre tesas, atentas ao mínimo precalço.
Ao bater ligeiro de uma asa no ar, o corpo toma a postura de todo um exército em ordem de batalha.

Espavorido é quando melhor corres: para trás ficou o perigo, à frente o teu próprio corpo em fuga.
Não precisas de viajar. Tens a casa, tens o tecto ou tens o céu, tens um pedaço de rua. É o mundo.
Tens a tua selva: a alcatifa, as pernas das cadeiras...
Ora uma bola, fofa, que dorme, ora um elástico, tenso, que dispara.
~
Por coincidência, no fim dessa tarde, passando pela Letra Livre, outra das livrarias das minhas predilecções e encontrei outro livro dele:
Peixinhos de Prata
Atacam o cerne da literatura e da escrita
não com os olhos ou o parco entendimento
mas com a boca, mas com os dentes
Espero que gostem!!!


domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tratados



Este mundo não tem centro enm

há outro mundo perto.

Aqui é-se mortal mas o pão vem

quente de manhã. Fica-se


monoteísta por antropomorfia (ou anamorfose?)

Aconteceu por cá a invenção

do jogo do xadrez e outros maduros

afeiçoaram-se à perspectiva. Ela


ensina como um zarolho paralítico vê o que lhe está por fora

à imitação do ciclope (o tal que tinha

de nascença um olho só

a meio da cara, por baixo da testa à grega)


e atado de pés e mãos não se arriscava

a sofrer de bicho-carpinteiro, vírus que as mães dizem atacar

os pequenos entes queridos quando

não havia cão nem gato que não metessem à bulha.


A invenção da perspectiva foi

de muita utilidade a arquitectos e designers,

o frio aprumo da régua somou-se aos quadros com

passos de dança e gansos


amestrados apresentaram em 3D

desenhos rigorosos ou apenas esboçados

(nessa altura não havia em cada lar pelo menos

um computador)


a detalhar com minúcia planos

que depois de alçados eram explicados

em explícitos cortes.


Por virtude da muita curiosidade que despertava quando jovem

a perspectiva foi simultânea amante de vários bons amigos

que a ela davam o seu melhor em dias e noites iluminadas pelos

prazeres em estudo.


Todos se ilustraram em várias artes

pondo a correr os saberes

aprendidos em comum. Consta que

Brunelleschi, Masaccio, Piero, o tudesco Alberto


e outros mágicos famosos tornaram credível

aquilo que a TV faz hoje noutra escala, a alta

escola do perigo: "tudo o que se amostra ao povo

deve ser-lhe dado a uma distância certa".
Júlio Pomar

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Poesia


(Não me atrevendo a traduzir, aqui fica)


La poésie est ce qu'il y a de plus réel, c'est ce qui n'est complètement vrai que dans un autre monde





(às vezes não precisamos de dizer muito)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Comigo me desavim

Comigo me desavim
Sou posto em todo perigo:
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda

domingo, 11 de janeiro de 2009

Domingo

Domingo, dia sagrado
A não sei que aspiração
De ter o corpo lavado
desta nossa condição...

Tudo a rezar pela alma
Que não tem nem pode ter...
Tudo a pedir uma calma
Que era um crime conhecer.

Parece a roda da lua
Com vontade de rodar
Na quimera de uma rua
Onde às vezes faz luar.

Miguel Torga

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Laudas a Galileu

Viajando por aí, “descubro” este Poema para Galileu, de António Gedeão.

Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.Lembras-te?
A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

E eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação
-que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscava os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las -,~
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

Que, por esta interessante iniciativa do jornalista António Granado, do Público é aqui lido por vários cientistas portugueses. É bom ver projectos assim!