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domingo, 20 de março de 2011

Karmas


260 vulcões activos e zona sísmica fazem do Japão um país singular. Talvez por isso a escolha da carpa Koi como símbolo da resistência e capacidade de adaptação a faça também tão popular no reino do design gráfico...
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Há que admirar esta ordem e resistência... face a um desastre de tais proporções, nem consigo imaginar o que seria noutro país qualquer.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Conhecer os outros: os pilotos tokkotai



Como afirma Heidegger, nós estamos na história. Não que a história exista primeiro e nós entremos nela. No momento em que nascemos, estamos na história.
1 de Novembro de 1940


Dizem que todos os japoneses têm de trabalhar nas indústrias importantes para o esforço de guerra. Isso quer dizer que há quem esteja a sugar o doce néctar ignorando a luta, a dignidade humana, a humanidade dos japoneses. O que é o patriotismo? Que se entende por terra ancestral?
14 de Setembro de 1941

Não sei porquê mas não consigo sentir-me eufórico com as vitórias do Japão na guerra. Sinto ansiedade. Preocupa-me também o que irá acontecer ao capitalismo depois da guerra.
9 de Dezembro de 1941

Excertos do Diário de Sasaki Hachiro, piloto tokkotai, ou piloto suicida japonês, kamikaze, como ficaram conhecidos no Ocidente.


É o primeiro de um conjunto de seis que Emikho Ohnuki-Tierney, professora da Universidade de Wisconsin dá a conhecer, numa leitura "acompanhada" com a história destes pilotos, tantas vezes mal interpretada, e que é importante (acho eu) conhecer.

Sinto que tenho de aceitar o destino da minha geração, combater na guerra e morrer. Chamo-lhe o destino porque somos obrigados a ir para o campo de batalha para morrer sem podermos exprimir as nossas opiniões, criticar e analisar os pórs e contras das nossas questões e, agir com príncipios, isto é, depois de ser privado da minha própria força...
12 de outubro de 1941

A nossa única salvação, no entender do professor T. está em interiorizarmos que temos de morrer. Por outras palavras, não podemos pensar na morte como uma possibilidade de vida.
21 de Maio de 1943

Será mesmo que a história precisa dos invisíveis "portadores de sacrifício?"
1 de Janeiro de 1944


Excertos do Diário de Hayashi Tadao, piloto tokkotai
Uma leitura que não deixa de ser fazer com alguma inquietação, mas que é muito interessante. O meu estado de desconhecimento dos outros era, neste caso, completo. O que é um erro.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A alma Japonesa




"É no Oriente, e em especial no Extremo Oriente, que as coisas comuns da criação ou os usos e costumes triviais da vida são susceptíveis de merecer um tal requinte de solenidade sentimental e de praxes de rito, que constituem um verdadeiro culto".

Tenho visto tanto post da Gi sobre o Oriente, a China, o Japão, enfim, acho uma verdadeira provocação e já lhe disse, de modo que achei que estava na hora de fazer o meu próprio post sobre um autor e tema que me interessou desde a minha juventude.

Estou a falar de Wenceslau de Moraes, esse escritor que, nas suas próprias palavras em 1928, se descreve assim a um japonês:


"Sou português. Nasci em Lisboa no dia 30 de Maio de 1854. Estudei o curso de marinha e dediquei-me a official da marinha de guerra. Em tal qualidade fiz numerosas viagens, visitando as costas da África, da Ásia, da América, etc. Estive cerca de cinco annos na China, tendo ocasião de vir ao Japão a bordo de uma canhoneira de guerra e visitando Nagasaki, Kobe e Yokoama.
Em 1893, 1894, 1895 e 1896 voltei ao Japão, por curtas demoras, ao serviço do Governo de Macao, onde eu estava comissionado na capitania do porto de Macao. Em 1896, regressei a Macao, demorando-me por pouco tempo e voltando ao Japão (Kobe). Em 1899 fui nomeado cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka, logar que exerci até 1913.
Em tal data, sentindo-me doente e julgando-me incapaz de exercer um cargo publico, pedi ao Governo portuguez a minha exoneração de official de marinha e de cônsul, que obtive, e retirei-me para a cidade de Tokushima, onde até agora me encontro, por me parecer logar apropriado para descançar de uma carreira trabalhosa e com saúde pouco robusta.
Devo acrescentar que, em Kobe e em Tokushima, escrevi, como mero passatempo, alguns livros sobre costumes japoneses, que foram benevolamente recebidos pelo publico de Portugal."

Desde cedo o comecei a ler, primeiro nas edições da Parceria António Maria Pereira, que fui comprando, depois mais tarde ou porque herdei ou porque comprei, primeiras ou segundas edições, até ter a obra completa.
Fascinava-me aquela escrita que me transportava para o outro lado do mundo e para outra civilização que desconhecia e que me parecia ali tão bem descrita.

Quase conseguia, achava eu, ver pelos olhos de Wenceslau e descobrir essas pessoas tão diferentes de nós, mas que, pela narrativa ficavam tão próximas.

Naturalmente continuei a ler mais sobre o Oriente, sobretudo sobre o Japão, país que sempre me despertou mais curiosidade que a China. Forçosamente nunca iria ver a mesma Osaka onde Wenceslau tinha passado alguns tempos, e então quando cheguei aos filmes dificilmente se consegue vislumbrar naqueles conjuntos de arranha-céus aquele Japão a que os livros de Wenceslau me tinham levado.

Lembro-me sobretudo do filme Black Rain de Ridley Scott, onde se podia ver uma amálgama de antigo e novo Japão, ou o que nós ocidentais vemos e a forma em como eles orientais ainda regem as suas acções, apesar de, aparentemente por fora terem mudado.


A grande questão, contudo, que me ficou foi: se eu alguma vez for ao Japão, serei capaz de ter um relance da alma japonesa?
Daquela que existe por baixo do consumismo que vemos e de todas as apropriações do ocidente que fizeram?
Como Wenceslau de Moraes a viu?

Carta retirada daqui.
Saber mais sobre Wenceslau de Moraes aqui.