sexta-feira, 27 de março de 2009

Subindo ou descendo

foto: José Luis Almeida
o elevador de santa justa



podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.



podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sózinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.



no tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
com o cesário dorme a última varina, a mais robusta.
não é para desoras o elevador de santa justa,
arrefece-lhe o esqueleto de metal,
mas tens o dia todo à luz do dia. não faz mal.


Vasco Graça Moura

4 comentários:

legivel disse...

... para escrever este (belo) poema, o que Vasco Graça Moura não andou para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo...

Sorrisos e um óptimo fim de semana!

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

E Lisboa não é o máximo?
Bela postagem, desejo a você um ótimo final de semana, beijos.
Já está melhor?

L.Reis disse...

...às vezes preciso que me lembrem destas coisas que habitam esta cidade e que, tão frequentemente, nos passam despercebidas... só porque estão sempre ali...

jose disse...

ainda não tinha deixado nenhum comentário em seu blog, mas desta vez, depois de ver aquela esplêndida foto (vê-se que o autor é um verdadeiro génio da fotografia...) não pude deixar de lhe dar os parabéns por este seu livro aberto tão interessante e seus posts sempre sumarentos e que nos fazem pensar... Um beijo grande, as melhoras de seu pé - e continue!