
Este mundo não tem centro enm
há outro mundo perto.
Aqui é-se mortal mas o pão vem
quente de manhã. Fica-se
monoteísta por antropomorfia (ou anamorfose?)
Aconteceu por cá a invenção
do jogo do xadrez e outros maduros
afeiçoaram-se à perspectiva. Ela
ensina como um zarolho paralítico vê o que lhe está por fora
à imitação do ciclope (o tal que tinha
de nascença um olho só
a meio da cara, por baixo da testa à grega)
e atado de pés e mãos não se arriscava
a sofrer de bicho-carpinteiro, vírus que as mães dizem atacar
os pequenos entes queridos quando
não havia cão nem gato que não metessem à bulha.
A invenção da perspectiva foi
de muita utilidade a arquitectos e designers,
o frio aprumo da régua somou-se aos quadros com
passos de dança e gansos
amestrados apresentaram em 3D
desenhos rigorosos ou apenas esboçados
(nessa altura não havia em cada lar pelo menos
um computador)
a detalhar com minúcia planos
que depois de alçados eram explicados
em explícitos cortes.
Por virtude da muita curiosidade que despertava quando jovem
a perspectiva foi simultânea amante de vários bons amigos
que a ela davam o seu melhor em dias e noites iluminadas pelos
prazeres em estudo.
Todos se ilustraram em várias artes
pondo a correr os saberes

aprendidos em comum. Consta que
Brunelleschi, Masaccio, Piero, o tudesco Alberto
e outros mágicos famosos tornaram credível
aquilo que a TV faz hoje noutra escala, a alta
escola do perigo: "tudo o que se amostra ao povo
deve ser-lhe dado a uma distância certa".
Júlio Pomar